A história de um povo, qualquer que seja, está muito longe de ser um conto de fadas ou um conjunto de momentos gloriosos cuja epopeias, para as nações que tiveram a sorte de ter um Camões, ou um Homero, ou um Virgílio; retratam de uma forma mais ou menos turvada e, por isso mesmo, jamais isenta.
A história é feita de altos e baixo, de conquistas e de perdas, de vitórias e de derrotas. A nossa colonização não foi brilhante. Cometemos erros, alguns muito graves e dos quais não nos devemos orgulhar. Mas não nos esqueçamos que até Locke teve acções de uma companhia esclavagista: assim eram os tempos, e qualquer hermaneuta digno desse nome tem que reconhecer que as evidências irrefutáveis dos dias de hoje estão nos antípodas daquelas aceites apenas há uns séculos atrás em áreas geográficas não distintas das actuais. Além disso, se a colonização e a revolução industrial tivessem brotado em África provavelmente teríamos sido nós os colonizados e, em grande medida, os escravizados. Assim nos ensinou a história, assim possivelmente teria sido. Assim é a natureza humana.
Todos os momentos históricos têm as suas vicissitudes e, no tocante àqueles dos quais não nos devemos orgulhar, se para mais não servirem, sirvam ao menos para aprendermos com eles os valores da tolerância, do respeito, da aceitação, enfim, da liberdade e não imposição coactiva de vontades aos demais.
O que se passa neste caso é o equivalente à destruição do arco do triunfo erguido por Napoleão em Paris, justificado pelas conquistas Francesas que custaram a vida a milhares de civis e militares Portugueses e milhões de Europeus. Faz sentido? Não. Irei mais longe. Não percebo o porquê da proibição de venda de «Mein Kampf» por duas razões distintas. Primeiramente porque quem realmente o quiser ler encontrá-lo-à e lê-lo-à sem grande dificuldade nestes tempos a que chamamos já «idade da informação». A outra razão que aponto para a não proibição da edição da obra resulta da minha firme convicção que não se escreveu até hoje, e provavelmente nunca se escreverá, maior obra contra o nacional-socialismo do que o próprio «Mein Kampf», e que o conhecimento geral desta obra poderia surgir como uma vacina capaz de impedir uma pandemia como aquela que assolou Europa das décadas de 30 e 40 na Europa. Mais uma vez, o rótulo interessa, mas é a substância o que mais importa.
A história não se apaga por decreto,não se corrige por edital nem está sujeita a revisão por enunciação de vontades. Ela é o que foi, e é assim que deve continuar a ser mantida. Se assim não for, sujeitamo-nos a eleger pessoas para gerirem a coisa pública em nosso nome enquanto estas se arrogam ao direito de reescrever, com o seu próprio código de valores não votado ou sujeito a referendo ou plebiscito, a história da cidade e o património que é dela e de todos.
Meus senhores: preocupe-mo-nos com o que realmente importa e esqueçamos o acessório.
Reflexões críticas sobre a actualidade à luz dos postulados liberais clássicos e libertários
amagi
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domingo, 31 de agosto de 2014
quarta-feira, 30 de julho de 2014
A escola pública, os alunos e o futuro de Portugal
A
discussão em torno da educação em Portugal é simultaneamente tanto um
imperativo imposto pela necessidade quanto parece ser uma impossibilidade
teórica, imposta pela análise prática quando considerado o caótico processo de
discussão educacional que teve lugar nos últimos anos. Com efeito, o que se
conclui - para além de que quando se fala desta temática, nada se consegue
concluir - é que se discute cá fora o que deveria ser discutido internamente
duvidando-se, e com fortes razões para isso, se a discussão que deveria ser
feita cá fora, é ou não levada a cabo lá dentro. A primeira diz respeito ás carreiras
e ao processo avaliativo, o segundo aos currículos, ao cheque-ensino -
concorrência - e à disciplina na escola, entre outros.
Vamos
por partes. O mundo mudou e, como de costume, sectores consideráveis da
população Portuguesa, nomeadamente as corporações mais bem instaladas e que
mais têm a perder com este processo globalizador, continuam, hoje e sempre,
irredutíveis à mudança e ao invasor ideário neo-liberal e ao regime
capitalista-exploralista que o serve. Com efeito, é exactamente isso que se
passa. Não precisamos de mudar nada no nosso sistema, porque tudo vai bem. O
oriente não se industrializou e não se tornou o centro produtor do mundo - em
bens e serviços -, o leste europeu, mais alfabetizado e instruído e com custos
unitários do factor trabalho mais baixos que o nosso, não se liberalizou, a
China e a Índia não aderiram à OMC, os tigres asiáticos são uma lenda polulante
que graça lá para os lados do sol nascente à qual não devemos ligar, a América
do Sul não tem hoje uma voz activa no mundo, a África não procura, ainda que
lentamente, o seu lugar ao sol no concerto das nações e o conjunto das
economias emergentes não dilaceraram a estrutura produtiva que existia no País,
num mundo com cada vez menos barreiras proteccionistas e no qual a competição
sectorial é mais intensa que alguma vez foi.
Como
dificilmente podemos concorrer em mercado aberto com estes players em produtos de
baixo valor acrescentado, tê-lo-êmos de fazer em nichos de mercado em que
sejamos comparativamente melhores. A melhor forma de o podermos fazer reside na
melhor combinação que consigamos encontrar entre as duas variáveis fundamentais
da produção que nos interessam aqui discutir: o capital e o trabalho. No que
diz respeito ao primeiro factor, os dados não são encorajadores. A formação
bruta deste tipo de factor de produção está muito longe de ser o esperado, e é
um dos calcanhares de aquiles da nossa economia. Quando se fala que a economia
lusa está fortemente descapitalizada, não se fala tanto na falta de capital
circulante: é do capital fixo que estamos verdadeiramente necessitados. Como
durante o boom do crédito barato nos mercados internacionais nos fomos
divertindo a gastá-lo - gastá-lo é diferente de aplicá-lo ou investi-lo, pois
este últimos pressupõem reprodutividade - em autoestradas onde ninguém anda, em
reestruturações de linhas de caminho-de-ferro que poupam minutos a custo de
centenas de milhões de euros, em processos de formação profissional cuja
avaliação nunca foi feita - talvez porque o resultado fosse aquele que, empiricamente,
todos prevemos que seja: MEDÍOCRE - ou em fantásticos planos corporizados por
uma nouvelle instruction chamada «Novas Oportunidades», essa
fantástica obra que pretendia eliminar por decreto uma atraso formacional que
tinha mais a ver com a Escola Pública da ditadura e da Democracia da III
República do que com qualquer outra questão; nunca fizemos o investimento que
devíamos ter feito na modernização da nossa estrutura produtiva no que às
instalações e equipamento/maquinaria diz, pois os empresários, quase que
obrigados pelas circunstâncias criadas pelo poder político e pela legislação
por ele aplicada na forma de isenções, estímulos, benefícios fiscais, etc,
preferiram aplicar esse dinheiro no imobiliário e em bens e serviços para
alimentar o mercado interno em vez de fazer aquilo que um País da nossa
dimensão deve fazer agora e sempre, que é exportar. E isto só aconteceu com o
dinheiro dessa oferta brutal de crédito que teve lugar no início da década que
o Estado não decidiu esbanjar em obras públicas, e aumentos de despesa com a
saúde, educação e prestações sociais que, há muito, já não se pagavam com as
receitas obtidas a através de contribuições e impostos - gosto da palavra
contribuições, diga-se -. Foi aí que começamos a perder o comboio desta última
globalização. É por isso que acho curioso esse auto-elogio que alguns fazem
agora a propósito desta capacidade que os empresários emprestaram à nossa
economia ao deslocarem a produção do mercado interno para o exterior. É tudo
uma questão de estímulos. Se ao menos o Estado tivesse percebido o que a
Alemanha já percebeu desde a sua unificação em 1870, a China desde 1979 com
Deng Xiaoping e os Estados Unidos não tardarão a perceber, por maior que seja o
mercado interno, o equilíbrio da balança comercial é fundamental num mundo
liberalizado e desprovido de barreiras alfândegárias. E o nosso mercado interno
não tem comparação com aqueles que acabo de referir, o que só piora o problema.
Ora se não temos possibilidade de solicitar somas avultadas de dinheiro na
forma de empréstimos porque ninguém nos empresta, como é quase impossível
aumentar a carga fiscal porque a mesma atingiu já números exorbitantes, e como
não geramos poupanças que nos permitam usá-las para, agora sim, as aplicar-mos
em bens e serviços transacionáveis capazes de ombrearem com o melhor que no
mundo se produza –ao invés do que se faz no passado recente -, resta-nos apenas
a moleta do investimento externo para podermos fazer a revolução tecnológica
que urgentemente necessitamos. Como a nossa estabilidade governativa, a nossa
política fiscal, a nossa burocracia e o nosso quadro legislativo são tudo menos
estáveis e previsíveis; não se augura grande futuro a este País se um grande consenso
político e social não se vir entretanto gerado.
Mas
onde perdemos definitivamente o comboio foi quando não percebemos o que fazer
com a educação desse bem cada vez mais escasso e precioso que são os nosso
jovens, onde me incluo, eles que representam a mão-de-obra, o factor trabalho,
o capital humano de amanhã, que vai competir com os jovens da Coreia do Sul, do
Japão, de Singapura, da Indonésia, do Brasil, da Colômbia, da Alemanha, da
Polónia e do Canadá. É essa a diferença entre a geração que hoje tem trinta ou
quarenta anos, e aquelas que aí vêm, com a dos seus pais ou avós: já não vais
haver espaço para equívocos, para disparates como a protecção legal dada aos
fósforos como forma de proteger essa indústria descapitalizada e ineficiente
contra a modernidade representada pelos isqueiros. Não é esquecendo a ameaça,
ou utilizando expedientes dilatórios para a rechaçar, apresentada pela
concorrência num mundo globalizado que resolvemos os nossos problemas: é enfrentando-os
em campo aberto. Naturalmente não em tudo, mas sim naquilo que podemos e
realmente somos melhores a fazer. A indústria do calçado, depois de ter passado
por momentos difíceis, não se salvou por decreto governamental ou por uma lei
da Assembleia da República: prosperou por que se reinventou, porque percebeu o
problema que residia nas consequências entretanto analisadas e porque lhe
atacou as causas. Esta indústria entreluziu rapidamente que nos produtos de
baixo valor acrescentado dificilmente seria competitiva: os concorrentes
asiáticos haveriam sempre de produzir o mesmo, e mais barato. Havia de utilizar
o know-how de décadas para produzir esses bens com maior valor acrescentado, e
ousou-se, com sucesso, jogar na mesma liga da Itália. Fascinante!. Com um
Markting agressivo e com novos modelos de gestão, o novo produto era muito mais
apetecível. E mais caro. Cada hora de trabalho gerava um valor muito superior
ao gerado no pretérito. Oxalá o seu exemplo faça escola.
E
a nossa Escola, essa formadora de capital humano que, antes de mais, forma
pessoas, forma cidadãos? Quem julga que ouvirá neste blog críticas pessoas a
políticos e/ou a movimentos associativos ou sindicalistas, perde o seu tempo.
Neste blog discutem-se ideias, não pessoas. Nessa linha, não quero nem vou
referir-me ao conflito entretanto reaberto pela enésima vez entre sindicatos e
a tutela, a propósito da prova de aptidões e competências que, apesar de tudo,
serviu de mote para esta reflexão. Não tenho capacidade, e em bom rigor também
me falta a vontade, de discutir se a prova deve ou não ser feita, nos moldes,
com o teor e nas circunstâncias em que esta foi feita, embora me pareça
evidente que a entidade patronal, quando antevê que vá ter um grande número de
candidatos para um número reduzido de vagas, deva ter o direito de impor previa
e publicamente as condições em que essa escolha vá ter lugar. E não me parece
que a tentativa de alguns colegas boicotarem a prova e limitarem a
possibilidade de, em liberdade, colegas seus poderem escolher fazê-la ou não,
contribua para uma imagem que deveria ser de rigor e de disciplina, para dar o
exemplo, e não de amotinação e desobediência. É certo que foi um ínfima parte
da classe, e esse aspecto tem de ser aqui reforçado, mas uma classe
determinante para o futuro do País que se quer ver respeitada e estimada pela
comunidade e pelos alunos, não se pode expor desta maneira sem esperar ser
atingida pelos estilhaços da deflagração, da detonação que esses actos provicam.
O Ministério não sai ileso de críticas neste processo, mas a história não foi
diferente com os últimos Ministros ou com os últimos governos apoiados por
maiorias parlamentares diferentes da actual, o que se levanta a interrogação
seguinte: serão as diferentes tutelas, portadoras elas mesmas de diferentes
sensibilidades e advindas de diferentes sectores da sociedade, as únicas
culpadas dos processos contenciosos frequentemente abertos e reabertos no
passado próximo? Fica a questão.
Sejamos
francos. Contra uma explosão no número de formados no ensino superior para
ingressarem no ensino, opõe-se uma diminuição brutal do número de alunos,
tendência que vem já do final da década de 70 e que se tem vindo a agravar nos
últimos anos. A fórmula composta pelas variáveis «mais professores» e «menos
alunos» parece indicar-nos o óbvio: há cada vez menos trabalho para um número
crescente de professores, e este é um facto indesmentível, porque factual.
Deixando
de lado a questões corporativas e focando o objecto deste artigo, o principal
problema reside, quanto a mim, na necessidade imperiosa de mudar o paradigma em
que operamos para nos tornarmos mais competitivos. Se não o fizermos a bem,
agora, vamos ser provavelmente forçados a fazê-lo à pressa e à bruta, sem
possibilidade de planear e de gerir eficientemente essa transição. As condições
que fomos forçados a aceitar pela Troika em 2011 poderiam ter sido suavizadas
se não nos tivéssemos apresentado às instâncias internacionais praticamente
falidos, e um falido não negoceia, não impões condições, como impôs a Irlanda
na manutenção do IRC. Enquanto andamos a discutir se os nossos filhos devem ou
não trazer trabalhos para casa - coitados! -, outros discutem qual o número de
horas que os jovens devem dedicar à escola em casa, de forma a prepará-los para
um futuro ultra competitivo. Enquanto entre nós se continua a aceitar quatro
meses de férias para a quase totalidade dos estudantes - um calendário
essencialmente agrícola completamente ultrapassado -, outros discutem já sua
diminuição de forma rápida. Enquanto entre nós o universitário com mais
matrículas é visto como um exemplo e admirado pela comunidade estudantil,
noutra parte do mundo ele é ostracizado por brincar com o dinheiro dos
contribuintes e por tirar uma vaga a alguém que a soubesse apresentar. Enquanto
que noutros pontos do globo o ensino permite, e admite, que estudantes
diferentes progridam a velocidades diferentes, entre nós esse conceito sofista
tão caro à tradição moral republicana que é a Igualdade, obriga todos os
estudantes a andarem à velocidade do mais lento. Enquanto que outros países
perceberam já que é introduzindo concorrência no sistema - concorrência entre
público e privado e entre escolas do próprio sector público -, no nosso canto à
beira-mar plantado insiste-se na manutenção de uma estrutura monolítica que
está a roubar, sem que ninguém se aperceba, o futuro do País. Enquanto que
noutras paragens se não confunde direito ao ensino com ensino fornecido pelo
próprio Estado através de escolas Estatais, entre nós continua-se a chamar
todos os nomes e mais alguns àqueles que só querem colocar os filhos na escola
que mais garantias lhe dê, sem pagar mais do que já paga para o sistema público
que financia com os seus impostos: seria o cheque-ensino. Tudo isto tarda em
ser discutido com rigor, com verdade, com lealdade. Tudo isto tarda em ser
aplicado, não porque não se saiba que iria melhorar o ensino, mas porque se
acha que iria ser difícil consegui-lo.
Mais:
alguém percebe como pode um professor com 30 anos de serviço, um docente cuja
experiência o torna um activo valiosíssimo para a escola e para a sociedade,
ter um horário zero e, ao seu lado, tem um professor contratado? Alguém percebe
o caótico e anárquico regime de colocação de professores, que frequentemente
opõe professores do quadro a contratados e que causa níveis de fricção e
desgaste na classe docente provavelmente evitáveis? Consegue alguém entender
porque é que os próprios alunos do secundário, ao perceberem a extrema
dificuldade que representa exercer a profissão de professor, se continuam a
inscrever em massa nos cursos superiores habilitantes? Pode alguém perceber
porque é que, havendo professores com horário zero ou parcial, não é criada uma
bolsa de explicadores que evitasse que os alunos que têm menos recursos, bem
como os demais, pudessem ter explicações na própria escola? Creio que todos
sabemos a resposta, e importa que percebamos de uma vez por todas que urge agir
ao invés de desviar o olhar.
Temos,
portanto, dois caminhos à nossa frente: ou mantemos tudo como está e arriscamo-nos
e ser varridos do mapa por quem seja mais instruído e competitivo que nós e,
mais grave, insultados legitimamente pelos que hoje não estamos a preparar e a
disciplinar convenientemente, os nossos filhos; ou então fazemos o que importa
fazer, doa a quem doer e custe o que custar, sem calculismo e sem calendários
eleitorais a toldar-nos o raciocínio.
É
simples, tudo o que tem de se fazer é decidir. E arcar com as consequências.
sexta-feira, 25 de julho de 2014
A família e o Estado: retrato de um casamento calamitoso
O post de André Abrantes Amaral no insurgente é, a meu ver, um fidelíssimo retrato do estado geral a que chegámos. E recordando as palavras de Salgueiro Maia quando tratava de motivar a tropa que o acompanharia na noite de 24 de Abril da E.P. Cavalaria de Santarém rumo ao terreiro do Paço, «há três tipos de Estado: os Estados Capitalistas, o Estados Comunistas e o estado a que chegámos». Este foi e é o estado a que chegámos. E sim, as maiúsculas e minúsculas diferenciam o que é diferente.
Contra o Estado do Deus, Pátria, Família do Estado Novo, um Estado que não sendo confessional como o Espanhol ou totalitário como o Italiano e, em muito maior dimensão, o nacional-socialista Alemão; o Estado da Terceira República Portuguesa é amoral. Ao olhar para trás, preferiu não impor uma teia de valores e esqueceu que a poderia sugerir, não por sua iniciativa, mas deixando a sociedade civil discuti-la. Para ele, Estado, bastava recolher-se e deixar as pessoas pensarem e decidirem. Mas não. Do alto da seu bem conhecido pedestal moral - porque coactivo, acrescente-se -, o Estado não só não ousou sugerir ou impor, como não permitiu que na colectividade as instituições formadas por homens livres ousassem propô-las. Fascistas eram o nome porque temiam ser chamados. Ao invés de assumir o risco de serem incompreendidos e esperarem que o tempo lhes desse razão, como fazem os grandes homens de Estado, preferiram o facilitismo, preferiram o curto-prazo, preferiram o ciclo legislativo de 4 anos findo o qual os dados não novamente lançados e tudo muda. Normalmente para pior.
O Estado esquece que sem âncoras morais nenhuma sociedade se mantém. Neste mundo em que «tudo» é relativo, famílias com filhos são tratadas de forma igual ás que não têm. Faz sentido. Num Estado mínimo, sem segurança social ou instituições providenciais algumas, faria todo o sentido. Mas neste Estado Social, neste Estado meio-colectivizada, em que as externalidades das acções e/ou omissões de uns se abatem sobre todos os demais, neste Estado em que as contribuições dos que trabalham servem para pagar as pensões/jubilações/reformas/aposentações - ufa!!! - na esperança, repito, NA ESPERANÇA, de que os que se seguem façam o mesmo; neste Estado, faria todo o sentido que sobre as famílias com filhos recaísse uma descriminação fiscal positiva, como agora se diz, porque os que não têm filhos podem aforrar substancialmente mais dos que aqueles que criam os que lhes irão pagar a reforma dos que não se dão ao trabalho de os ter. Esta é a contradição do arranjo: o Estado, tendo em conta o sistema que impôs aos cidadãos, tinha a obrigação de proteger a instituição família ao invés de a desprezar. E passados tantos anos, nem esta lição parece ter aprendido.
Quando alguém disser que a própria existência de um Estado Social não limita a liberdade das pessoas a terem ou não filhos, a argumentação acima apresentada invalidará, a meu ver, rapidamente o juízo. E, já agora, explica porque é que o aforro das famílias desceu abruptamente em 40 anos, poupanças essas tão necessárias para investir em capital fixo que tão urgentemente necessitamos. Quem discordar desta análise não deve apresentar como argumento que no passado era mais fácil poupar do que agora, porque não era.
Todos nós temos valores partilhados, a isso chamaríamos a moral colectiva. Temos também um conjunto de valores que resultam da nossa própria visão, do nosso próprio ponto de vista, e que ganham forma na ética que, como sabemos, é uma reflexão sobre a moral. O problema foi que cada vez que havia um golpe de Estado a que, normalmente, se seguia uma mudança de regime, o código moral imposto, e não o aceite por todos de forma não coactiva mas consuetodinária, muda ele também. Foi assim com o feroz anticlericalismo da I República por contraponto à força apresentada pela religião de Estado que era a católica na Monarquia, é assim com a família na III República quando comparada com o papel que esta instituição tinha na II República. Quando nos perguntamos por que é que a Espanha, estando num ponto desenvolvimental semelhante ao nosso no pós segunda guerra mundial, se descolou de nós de tal forma que o seu grau de desenvolvimento é hoje incomparavelmente superior; devemos lembrar-nos desse «assombro ao mundo» que representou a sua transição quando comparada com a nossa revolução. Goste-se ou não da instituição monárquica, e assumam-se os escândalos que aqui e ali teve, tem e terá - e que, diga-se, com uma irrepreensível frieza e sentido de Estado tem sabido debelar -, ela corporiza um conjunto de valores que não mudam de 4 em 4 anos, ela assume um conjunto de princípios que, sendo apartidários, são políticos e são morais, e assume-os sem medo, sem pudor, sem sentimento de superioridade, sem essa mescla de indiferença progressista e marxizante, sem querer assumir uma isenção partidária que quem liderou um partido não pode jamais assumir e sem um pseudo amoralismo que, pela sua vacuidade, pode ainda ser pior do que uma base moral com a qual discordemos.
A família é um pilar do indivíduo, da sociedade, não propriedade do Estado. A família não é um factor de produção que possa ser manobrado quando dá jeito e esquecido, deitado fora como um trapo, quando as circunstâncias mudam.
A família é o Pilar da colectividade, e são os indivíduos que a formam que se agregam voluntariamente para formar uma arranjo político-jurídico-institucional a que se convencionou chamar Estado porque entendem que essa é a melhor forma de gerir a vida em sociedade. Quando o Estado se transforma num leviatã que acredita que as pessoas são apenas livres porque ele o permite e não porque a sua própria natureza se encarrega de as assim trazer ao mundo, quando o Estado criou por décadas e em gerações inteiras a ideia de que a sua vida lhe pertence, quando o Estado se permite ao desplante de pedir mais filhos para não fazer as mudanças estruturais que a Administração necessita urgentemente para evitar a mais que provável insolvência deste estado, deste Estado Social baseado em argumentação mais populista que de racionalidade económica; então este Estado não pode esperar das pessoas outra sentimento que não aquele que ele mesmo nutre por elas: desdém.
Façamos o que se impõe, mudemos o que é urgente mudar: preparemos o futuro dos nossos filhos e não os façamos assumir contas resultantes dos erros do passado.
Ontem era já tarde. Amanhã será tarde demais.
Contra o Estado do Deus, Pátria, Família do Estado Novo, um Estado que não sendo confessional como o Espanhol ou totalitário como o Italiano e, em muito maior dimensão, o nacional-socialista Alemão; o Estado da Terceira República Portuguesa é amoral. Ao olhar para trás, preferiu não impor uma teia de valores e esqueceu que a poderia sugerir, não por sua iniciativa, mas deixando a sociedade civil discuti-la. Para ele, Estado, bastava recolher-se e deixar as pessoas pensarem e decidirem. Mas não. Do alto da seu bem conhecido pedestal moral - porque coactivo, acrescente-se -, o Estado não só não ousou sugerir ou impor, como não permitiu que na colectividade as instituições formadas por homens livres ousassem propô-las. Fascistas eram o nome porque temiam ser chamados. Ao invés de assumir o risco de serem incompreendidos e esperarem que o tempo lhes desse razão, como fazem os grandes homens de Estado, preferiram o facilitismo, preferiram o curto-prazo, preferiram o ciclo legislativo de 4 anos findo o qual os dados não novamente lançados e tudo muda. Normalmente para pior.
O Estado esquece que sem âncoras morais nenhuma sociedade se mantém. Neste mundo em que «tudo» é relativo, famílias com filhos são tratadas de forma igual ás que não têm. Faz sentido. Num Estado mínimo, sem segurança social ou instituições providenciais algumas, faria todo o sentido. Mas neste Estado Social, neste Estado meio-colectivizada, em que as externalidades das acções e/ou omissões de uns se abatem sobre todos os demais, neste Estado em que as contribuições dos que trabalham servem para pagar as pensões/jubilações/reformas/aposentações - ufa!!! - na esperança, repito, NA ESPERANÇA, de que os que se seguem façam o mesmo; neste Estado, faria todo o sentido que sobre as famílias com filhos recaísse uma descriminação fiscal positiva, como agora se diz, porque os que não têm filhos podem aforrar substancialmente mais dos que aqueles que criam os que lhes irão pagar a reforma dos que não se dão ao trabalho de os ter. Esta é a contradição do arranjo: o Estado, tendo em conta o sistema que impôs aos cidadãos, tinha a obrigação de proteger a instituição família ao invés de a desprezar. E passados tantos anos, nem esta lição parece ter aprendido.
Quando alguém disser que a própria existência de um Estado Social não limita a liberdade das pessoas a terem ou não filhos, a argumentação acima apresentada invalidará, a meu ver, rapidamente o juízo. E, já agora, explica porque é que o aforro das famílias desceu abruptamente em 40 anos, poupanças essas tão necessárias para investir em capital fixo que tão urgentemente necessitamos. Quem discordar desta análise não deve apresentar como argumento que no passado era mais fácil poupar do que agora, porque não era.
Todos nós temos valores partilhados, a isso chamaríamos a moral colectiva. Temos também um conjunto de valores que resultam da nossa própria visão, do nosso próprio ponto de vista, e que ganham forma na ética que, como sabemos, é uma reflexão sobre a moral. O problema foi que cada vez que havia um golpe de Estado a que, normalmente, se seguia uma mudança de regime, o código moral imposto, e não o aceite por todos de forma não coactiva mas consuetodinária, muda ele também. Foi assim com o feroz anticlericalismo da I República por contraponto à força apresentada pela religião de Estado que era a católica na Monarquia, é assim com a família na III República quando comparada com o papel que esta instituição tinha na II República. Quando nos perguntamos por que é que a Espanha, estando num ponto desenvolvimental semelhante ao nosso no pós segunda guerra mundial, se descolou de nós de tal forma que o seu grau de desenvolvimento é hoje incomparavelmente superior; devemos lembrar-nos desse «assombro ao mundo» que representou a sua transição quando comparada com a nossa revolução. Goste-se ou não da instituição monárquica, e assumam-se os escândalos que aqui e ali teve, tem e terá - e que, diga-se, com uma irrepreensível frieza e sentido de Estado tem sabido debelar -, ela corporiza um conjunto de valores que não mudam de 4 em 4 anos, ela assume um conjunto de princípios que, sendo apartidários, são políticos e são morais, e assume-os sem medo, sem pudor, sem sentimento de superioridade, sem essa mescla de indiferença progressista e marxizante, sem querer assumir uma isenção partidária que quem liderou um partido não pode jamais assumir e sem um pseudo amoralismo que, pela sua vacuidade, pode ainda ser pior do que uma base moral com a qual discordemos.
A família é um pilar do indivíduo, da sociedade, não propriedade do Estado. A família não é um factor de produção que possa ser manobrado quando dá jeito e esquecido, deitado fora como um trapo, quando as circunstâncias mudam.
A família é o Pilar da colectividade, e são os indivíduos que a formam que se agregam voluntariamente para formar uma arranjo político-jurídico-institucional a que se convencionou chamar Estado porque entendem que essa é a melhor forma de gerir a vida em sociedade. Quando o Estado se transforma num leviatã que acredita que as pessoas são apenas livres porque ele o permite e não porque a sua própria natureza se encarrega de as assim trazer ao mundo, quando o Estado criou por décadas e em gerações inteiras a ideia de que a sua vida lhe pertence, quando o Estado se permite ao desplante de pedir mais filhos para não fazer as mudanças estruturais que a Administração necessita urgentemente para evitar a mais que provável insolvência deste estado, deste Estado Social baseado em argumentação mais populista que de racionalidade económica; então este Estado não pode esperar das pessoas outra sentimento que não aquele que ele mesmo nutre por elas: desdém.
Façamos o que se impõe, mudemos o que é urgente mudar: preparemos o futuro dos nossos filhos e não os façamos assumir contas resultantes dos erros do passado.
Ontem era já tarde. Amanhã será tarde demais.
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Ce qu'on voit et ce qu'on ne voit pas - Bastiat e a minha visão do Liberalismo Clássico
Na sua intelectualidade
refinada, Frédéric Bastiat resumiu numa expressão, de resto
impecavelmente condensada, uma quantidade de informação tão densa
e de tão grande relevo que se torna difícil discorrer sobre ela sem
que omitamos pontos que eventuais leitores considerem falta grave ou
cuja deslembrança não possa configurar, para si, um verdadeiro
crime de lesa majestade. De idêntico modo, será também fácil
atribuir-lhe significados que o autor não terá assumido aquando da sua formulação, razão pela qual entendo que a realização deste simulacro reflectivo deverá assentar sobretudo no meu próprio ponto de vista. Evita-se
assim não só a desfocagem do original, ou o que quer que uns tantos
pretensos herdeiros morais da sua tradição liberal entendam por «original», esses ditos verdadeiros representantes de uma estranha «nomenklatura»
de liberais que gostam mais de arrebanhar do que aplicar os princípios de liberdade que tão prontamente defendem; mas também, ou sobretudo,
expressar o meu próprio ponto de vista sobre a temática sobre a
qual me proponho discorrer.
Assumindo que a assumpção desse
risco, dessa forte possibilidade de me ver ver incompreendido faz
parte da vida, creio ser importante que liguemos a ficha que nos
alimenta à tomada da razão que, pelo que vejo, ou tem estado
desligada ou curto-circuitou. A este respeito, devo confessar que foi
o uso desse instrumento que o racionalismo continental miscigenado
com o empirismo insular sintetizado pela majestático criticismo
Kantiniano nos legou, que nos permitiu lançar as bases para o
período maior expansão comercial e industrial que a historiografia
até então havia registado. Foi com o auxílio da razão, da lógica,
da coerência epistemológica, foi através da negação da lenda, do
dogma e dos postulados inquestionáveis impostos pela minoria
dominante à maioria ductilizada e submissa, que a liberdade se impôs
e que o Liberalismo vingou. Foi o século da luzes, a que seguiu o século das revoluções Liberais. Foi acabando com o Lordismo feudal com
que poucos agrilhoavam muitos, foi extinguindo direitos hereditários
que a sociedade não podia já tolerar e contra os quais se insurgiu,
foi eliminando proteccionismos vários com que alguns mantinham o seu
stautus quo de privilégio à
custa da manutenção dos demais na ignorância e na miséria, que a
sociedade avançou, que a liberdade ousou vingar. O sucesso passou a medir-se
cada vez menos pelo berço e mais pela perseverança, pelo mérito,
pelo valor do agente e pela força das suas ideias no mercado. Os que não nasciam entre a aristocracia e que, contra todas as probabilidades, venciam, não admitiam que lhes não fosse reservada representação política consistente com a sua importância. Foram estes, e não os outros, que acumularam o capital necessário para das inicio às revoluções industriais. Foram estes que permitiram a milhões sair do estado de pobreza absoluta em que se encontravam. Foram este que criaram excedentes sistematicamente reinvestidos na actividade produtiva reprodutiva - sim, há actividade produtiva não reprodutiva - que fizeram com que mais pessoas vissem melhorada a sua vida e a dos seus. Foram estes e não o Estado, foram estes e não decretos, foram estes e não um conjunto de palavras bonitas, mas vazias, porque não lastreadas em qualquer substracto económico validável, que moldaram o mundo em que vivemos. Em toda a história nunca um
ideário, nunca um corpo filosófico-político não coordenado, não combinado, não superintendido, transformou de forma tão profunda, tão demarcada, o futuro dos povos e das nações. Nunca um movimento desligado e não comandado mudou tão indelevelmente a sociedade como o Liberalismo. E fê-lo aumentando de forma nunca antes vista a qualidade vida dos cidadãos, fê-lo abrindo barreiras até então intransponíveis para os que não tinham voz ou que não ousavam usá-la, por medo ou por temor.
É isto o Liberalismo: colocar no centro o indivíduo, o homem, com os seus defeitos e com as suas virtudes, um ser livre, não comandado, não ordenado, que age com base nos seus interesses, sim, há que assumi-lo. Quem tem isso de mal?
O grande legado do Liberalismo, o toque de midas, o seu maior insight, foi ter percebido que o mercado induz no indivíduo a percepção que é do seu interesse cooperar com os seus pares, ainda que o agente, por outras quaisquer circunstâncias, o não quisesse fazer. O primeiro grande erro do mundo contemporâneo foi ter-se espalhado a virulenta percepção, mesmo de entre as democracias liberais, que há quem saiba o que é melhor para nós, que há outros que têm a responsabilidade de - vejam, outros carregam por nós a responsabilidade! - se preocupam por nós e, em última instância, que há alguém que carrega o sempre pesado fardo de decidir o nosso destino individual e colectivo. O segundo grande erro é gostarmos disso. O segundo grande erro foi aceitarmos que decidam a nossa vida sem quase termos força para nos opormos. O terceiro foi termo-nos habituado, e vivermos bem com isso.
Quando nos perguntamos porque temos hoje crises globais, quando nos questionamos porque têm as democracias ocidentais os gravíssimos problemas de endividamento público e externo, de sustentabilidade das finanças públicas, de pagamento de pensões, de demografia ou de competitividade para com os mercados emergentes, temos que nos lembrar que a economia é tão feita de ciclos de crescimento e de retracção como a bolsa se compõe de períodos bear e bull market. Contudo, quando o processo de tomada de decisões se encontrava atomizado, quando as deliberações eram tomadas de forma desconcentrada e descentralizada pelos agente económicos no mercado, qualquer crise resultava na obrigação de reestruturação da empresa, adaptando-a à novas condições em que o mercado passava a operar, ou na sua falência. Raramente estes acontecimentos tinham consequências sistémicas. Por cada empresa que caía, duas se levantavam: o mercado resolvia rapidamente as suas ineficiências e recuperava rapidamente as suas perdas. E, de repente, como nos disse Jean Guéhenno, o equilíbrio rompeu-se. Com a dispersão metástica por entre todas as áreas da sociedade civil de políticas públicas frequentemente tanto invasivas e desajustadas quanto deformadas e extemporâneas, e com o colectivização e internalização de decisões cuja assumpção de risco passou dos agentes económicos que operavam no mercado directamente para o controlo Estatal; tudo mudou. As cíclicas crises cujo impacto no pretérito o mercado aguentava e da qual rapidamente recuperava, tornam-se hoje, porque o processo de tomada de decisões se viu concentrado e burocratizado, fenómenos passíveis de fazer ruir sistemas inteiros, sistemas esses que foram sendo construídos em cima de palavras bonitas, de promessas vãs que o dinheiro que entretanto não foi gerado pelo anémico crescimento económico medido, não puderam nem podem pagar. E os cidadãos acreditaram no que lhes contaram. E os cidadãos não querem acreditar que o que lhe contaram era incumprível, embora o saibam. Vivemos ainda em negação, pelo que teremos que passar pela raiva, pela negociação e pela depressão antes de chegarmos à quinta de cinco fases do luto que é a aceitação. Temos pela frente um grande caminho.
Está na altura de falarmos verdade. Estaria na altura de devolver aos cidadãos a liberdade entretanto perdida. Estaria na altura de retirar o colete de forças dos que têm vontade de avançar e se vêem presos pelos que se querem manter imóveis. Digo estaria porque várias gerações viveram já numa sociedade semi-colectivizada que deixou marcas profundas na nossa memória colectiva, uma colectividade em que as consequências dos nosso actos, se e quando individualmente considerados, são frequentemente dispersas pela comunidade em geral. Este histórico marca desde então fortemente a nossa relação com a liberdade, até porque ela pressupõe responsabilidade.
O grande desafio do Liberalismo contemporâneo é pois fazer a apologia da liberdade, fazendo-nos crer, como nos dizia Goethe, que «ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser». Convencer alguém a deixar de ser esse escravo que se submete, que oferece a sua liberdade em troca de uma pretensa protecção contra a as adversidades da vida, ainda para mais num sistema providencial que sabemos estar perto do colapso, mas que ninguém se atreve a propor alterá-lo; é oferecer-lhe um lugar numa fusta com uma vela e com um leme que o pode levar onde quiser. Basta aprender a pilotá-la. Basta que queira aprender a pilotá-la. Basta que não queira ser mais pilotado.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Capitalismo à Portuguesa: das origens à actualidade
O mais recente post de André Abrantes Amaral, no Insurgente, é extremamente
interessante porque traz de novo à colação um assunto que, quer pela sua
seriedade, quer pela sua importância, deveria merecer da nossa parte a nossa
melhor atenção. Falo do modelo económico identificável em Portugal. Como disse
Nixon, três anos depois da massa monetária em circulação deixar de estar
lastreada num metal precioso e poder ser a todo o tempo convertida, e
naturalmente trocada, por uma determinada quantidade de ouro – o chamado
padrão-ouro -; «somos todos Keyneseanos». Todos não, diria eu, porque
só são os que podem.
Vamos por partes. A Monarquia
Constitucional herdada das revolução liberal que abanou o País já fortemente
deprimido pela fuga - ou manutenção do governo no exílio, como preferirem -
da Família Real, e ulterior vazio de poder, pelas guerras napoleónicas e
pela longa e penosa regência Inglesa, permitiu que fossem criados alguns
conglomerados comerciais/industriais frequentemente ligados à aristocracia, ou
por ela protegidos, ou que fossem beneficiadas certas famílias que haveriam de
construir impérios herdados pelas sucessivas gerações das mesmas, algumas das
quais perduram com grande influência nos sectores do poder até aos dias de hoje.
Até aí nada contra, acontece em todo o lado, e faz parte do processo normal sempre
que uma economia inicia um processo de industrialização que, no nosso caso, foi
já tardio. O livre mercado e a competição entre produtores pelo «favor» dos
clientes haveria, pelo caminho, de eliminar esses privilégios e equilibrar o
nível competitivo. Em teoria, pois a história foi outra, como de resto sabemos. Pelo caminho fomo-nos
ainda deixando enganar por teorias económicas vendidas por estrangeiros que,
desde sempre, conseguiram enfeitar postulados de consistência duvidosa e
enganar um povo que tem um desdém pavoroso pelo que produz e uma paixão alucinante pelo que vem de
fora. A este respeito a teoria da vantagem comparativa de David Ricardo era um
disparate pegado, pois se Portugal era mais eficiente na produção de vinhos e
de tecidos na Inglaterra, porque não produzíamos tecidos e vinhos? A concórdia
deve existir entre empresas de países diferentes cujos Estados controlam o que
se pode e não se pode produzir e em que quantidades? Entre empresas que
deveriam competir? E nós assinámos aquilo? O livre mercado só se deveria
aplicar quando dava jeito à Inglaterra? A Inglaterra, à conta de vender banha
da cobra a estrangeiros que adoravam a aura que reluzia naqueles distintos e
impecavelmente engomados gentleman's ingleses, conseguiu criar o maior
império da história. E dar mais uma facada no nosso, embora aí a culpa tenha
quase sempre sido nossa. Adiante.
Da I República nem se pode dizer muito.
Quis ir tão longe e tão depressa em tão pouco tempo que acabou por não ir a
lado nenhum. A imprudência e fraqueza dos seus governos, quando aliada à falta
de experiência governativa e à dificuldade de se ver reconhecida na cena
internacional, obrigou-a a um esforço financeiro gigantesco para conseguir
enviar para os campos de batalha da Flandres o Corpo Expedicionário Português,
naquilo que ficaria conhecido como o «Milagre de Tancos». Mal o menos: mantivemos
o Império Colonial, embora ache que a manutenção dele nos terá impedido de
darmos o salto que deveríamos ter dado na produção de bens e de serviços de valor
acrescentado, mantendo um sistema produtivo bastante primitivo com capital fixo
também ele arcaico.
À desgraça da I República, com governos
que duravam quinze dias, seguiu-se outra desgraça: a da II República. Para além
de continuar a ser mantido um modelo produtivo relativamente fechado que girava
em torno do comércio de bens e de serviços negociados entre o Portugal
Metropolitano e as então Províncias Ultramarinas, como já vimos com pouca
intensidade de capital e alta concentração do factor trabalho, facto que
desequilibrava completamente os níveis de eficiência que devem ser procurados
alcançar entre todos os factores de produção; aos Portugueses não foi dada a
oportunidade de se instruírem em massa. Nem a oportunidade de, ombreando com os
melhores num mercado aberto à escolha levada a cabo pelo Darwinismo de
Mercado, fazermos a diferença
e alterarmos o nosso tecido produtivo, não apenas através do investimento
(re)produtivo, necessariamente alocado a capital fixo, mas também circulante,
uma vez que apenas a diversificação das fontes de aquisição de matérias-primas, tida como condição essencial para concretizar essa modificação, só
seria possível se o Império não fosse a prioridade absoluta, o que era dificil de alcançar num
tempo - guerra colonial - em que o País era votado ao isolamento e ao
ostracismo internacionais.
Os principais conglomerados industriais e comerciais da altura beneficiavam
de uma certa teia proteccionista do regime, e o regime contava com eles para
não atacarem o poder instalado. O medo da ameaça comunista era a cola que
juntava uma já de si provável fusão simbiótica entre um regime que precisava de
aliados que o cimentassem e um tecido empresarial pouco habituado a concorrer
no exterior e a quem interessava mais a calmaria ditatorial que a competição pelo
favor dos clientes. Lembremo-nos da proibição do uso de isqueiros com o
argumento de proteger a indústria fosforeira nacional - ainda bem que não se
lembraram de proibir viaturas com motores de explosão a favor dos criadores de
burros de Trás-os-montes ou de cavalos do Ribatejo -. Apenas alguns
privilegiados e alguns próximos dos homens do regime, dentre aquela que pode
ser chamada de aristocracia republicana, tinham aspirações a frequentar a
academia. É verdade que havia uns apadrinhamentos e algumas bolsas de mérito
para estudantes pobres, mas essa era a excepção, num País onde a manutenção de
elevados de iliteracia eram a regra que permitia servir simultaneamente dois
propósitos: a manutenção de um desejo de status
quo no seio conjunto de pessoas
sem massa crítica e capacidade de discernimento liberal e a preservação de um
modelo social baseado no «Deus, Pátria e Família» que nos fez perder o
comboio da globalização. Se juntarmos a isto o facto de os principais
investimentos serem feitos no Ultramar e não na Metrópole e de gastarmos 25 %
do PIB em funções de Defesa, então podemos ter uma ideia do quadro pintado
naquela altura em que nos devíamos ter preparado para o embate asiático. Mas,
como de costume, não o previmos e não preparámos. Ainda que o tivéssemos
previsto, também não nos teríamos preparado como não nos preparámos com o
choque a leste depois da queda do muro de Berlim. É assim a vida. Somo bons no
desenrasque, mas péssimos no planeamento.
A III República começou bem. Pouco depois
da revolução, começa um complicado jogo de esquerdização da vida política que
tem como ponto alto a nacionalização de grande parte do sector produtivo com
consequências gravíssimas cuja conta ainda hoje nos é servida. Para além de
termos perdido a capacidade produtiva efectiva em vários sectores de forma
imediata, anos de greves, de paralisações e gestão de trabalhadores haveriam de
desmontar sectores-chaves nos quais, do dia para a noite, deixámos de ser
competitivos. Para nunca mais o sermos. A indústria de construção naval,
química e metalomecânica são alguns exemplos. Mas, mais do que isso, porque
como a maioria de nós sabe, a economia vive sobretudo de expectativas -
expectativa que a seguir ao investimento o caminho natural é contar com a sua
rentabilização, materializada naturalmente na obtenção de lucros líquidos -, e
quando se dá a ideia ao estrangeiro que todo o investimento aplicado em
Portugal corria o risco de se nacionalizado, das suas fábricas se verem
paralisadas pela intervenção de sectores radicais, de a Administração ter
dificuldade em normalizar a vida política e de a legislação estar muito pouco
preocupada com a segurança jurídica do investimento empregado; então é praticamente impossível atrair o investimento
estrangeiro que necessitávamos tanto para podermos reerguer-nos. Lembremo-nos
que no entretanto 800 000 Portugueses haviam sido repatriados nessa mesma
altura e a situação do País era tão aflitiva que tivemos de pedir assistência
internacional em 1977 e 1983. Mais, a situação a seguir ao 25 de Abril era de
tal maneira crítica que Kissinger, Secretário de Estado de Nixon e Gerald Ford,
dava já Portugal como perdido para os comunistas, esperando que o efeito do coup funcionasse como uma vacina para
as transições de Espanha e da Grécia.
É só depois das negociações levadas a cabo para a entrada na União
Europeia em 1986 e com a revisão constitucional de 1982, que as
privatizações se tornam uma imperiosa necessidade. Como o investimento externo
não fluía - conseguem imaginar porquê, hum?!? -, foi-se ao Brasil tentar vender
aos legítimos proprietários o que lhe havia sido expropriado aquando da
revolução. Falo das famílias Mello, Champalimaud e Espírito Santo, culpados do
crime único de gerarem riqueza e prosperidade. Porque muitos deles não tinham
capital suficiente para comprarem o que era seu, endividaram-se grandemente
para o conseguirem - talvez essa engenharia financeira, quando agregada a
alguns disparates gestionários entretanto cometidos, explique por exemplo o caos
das Holdings da Família Espírito Santo -, formando muitas vezes novos
aglomerados em sectores frequentemente diferentes daqueles nos quais originalmente
tinham estado envolvidos, o que dá prova da sua tenacidade e da sua capacidade
empreendedora. Apesar de tudo, se não se tivessem endividado tanto, talvez
fossem empresas mais solventes e mais capazes de competirem no exterior e de se
internacionalizarem. E este é o ponto-chave. O Estado, provavelmente por um
complexo moral, provavelmente por interesses e ligação entre a política e a
economia -estas por provar, atenção - que não interessam para o caso, foi
sempre muito compreensivo e permissivo com algumas das suas reivindicações, o
que não ajudou o Estado - por razões evidentes - nem as empresas, que perderam
parte do incentivo para se modernizarem e se reestruturarem sempre que as
necessidades do mercado, i.e., dos consumidores, assim o determinassem. Isto
explica ou pode explicar que o retorno do investimento público, que em muitos
casos foi apenas «alavancado»
pela banca, - quer isto dizer que a banca apenas financiou uma pequena parte
desses investimentos - tenha feito recair sobre esta última uma parte
desproporcional dos lucros que, ainda por cima, resultaram frequentemente de
contratos com rendas certas e permanentes onde o risco do investimento estava
todo do lado do Estado, cujo melhor sinónimo que encontro é «sobre os ombros do
contribuinte», e nenhum do lado da banca ou das empresas por si participadas ou
por ela financiadas. As parcerias público-privadas são uma óptima solução em
Países onde os contratos são feitos por duas partes bem informadas, e foram
diabolizadas como sendo um ataque do «capital» contra o pobre e desafortunado
Estado. Não. Aquilo que é desigual é a qualidade dos advogados e juristas
presentes em cada lado da barricada ou, para ser mais preciso, dos incentivos envolvidos na transacção. Não se pode querer os melhores pagar-lhes
como se de regulares de tratassem. E para quem tem dúvidas dos méritos de uma
PPP bem negociada, repito, BEM NEGOCIADA, vejam o caso de Sandy
Springs, em Atlanta, Georgia, EUA. A juntar a isto tudo, e note-se que
creio ter já tentado explicar o porquê deste Capitalismo à Portuguesa viver
invariavelmente à sombra do Estado - que fazem os bancos Portugueses quando se
unem para comprar dívida pública Portuguesa, com risco de incumprimento apesar
de tudo elevado, senão para fazer um favor ao Estado que terá de ser pago,
provavelmente, com PPP's com condições favoráveis? -, criou-se o risco moral, e
já agora compreensível, de todas as empresas se julgarem no direito de recorrerem
ao Estado sempre que a coisa se anuncia poder vir a correr mal. Até as
multinacionais que se cá instalam não vêm sem ir ao Saldanha contratar a melhor
firma de Advogados para assinar com o Estado Português um complexíssimo
contrato de fixação, no qual uma vez mais os incentivos para a boa conclusão do
processo radicam nestes últimos e nunca nos servidores do Estado, contrato esse
no qual os impostos dos Portugueses financiam a competitividade dessas empresas
no estrangeiro, através de uma miríade de isenções fiscais e de benefícios.
Logo que os benefícios desaparecem ou terminam, a empresa arruma as malas e vai
à vida.
Posto isto, este capitalismo à Portuguesa
é de facto muito sui generis.
Mas, uma vez identificado o problema e enunciadas as causas, não vejo razão
para não se caminhar no caminho de os procurar resolver.
Contudo, e depois de visto o que já vimos,
desejo-o mais do que o espero.
terça-feira, 8 de julho de 2014
Argentina: história de uma tragédia anunciada
A propósito dos mais recentes problemas enfrentados pela Argentina, fica um excerto de um artigo de opinião de Maurício Rojas, intitulado «Raíces de la tragédia argentina».
Parece que no paraíso do Peronistas, dos Galtieristas e, mais recentemente dos Kircheneristas - homem seguido de mulher na presidência, onde é que eu já vi isto?!? - de todos os que entendem ter sido tocados por Deus ou pela Providência para derramaram sobre os seus cidadãos a sua infinita e inapelável sabedoria; nem tudo vai bem ou, para ser preciso, tudo vai mal.
Sim, vamos nacionalizar as empresas que se desenvolveram com o aforro de uns quantos e cujo risco eles suportaram. Como a coisa correu bem, toca a apropriar-se dela. Sim, vamos ferrar o calote a quem nos emprestou dinheiro, dizendo alto, unilateralmente e a uma só voz: «Não pagaremos!» - qualquer coincidência com a famosa expressão da Passionara nos tempos da guerra civil na batalha é pura ficção! -. Sim, vamos dizer a todo o mundo que o paraíso socialista à maneira Argentina tem resultado numa taxa de inflação que ninguém sabe exactamente qual é porque o governo a esconde - esses atrevidos cidadãos pensarão mesmo que isso lhes diz respeito? que impertinência! -, numa taxa de desemprego que também, ao certo, ninguém sabe porque o governo não quer dizer - o cidadão deve ter mais com que se preocupar, com o pão por exemplo - e com níveis de corrupção que o governo também não divulga porque não lhe convirá. Assim, no eixo Buenos Aires, Caracas, Havana e La Paz/Sucre, essa verdadeira Confederação Bolivariana, tudo vai bem, menos a economia, as finanças, a qualidade de vida, a competitividade empresarial, o emprego, a inflação, o livre exercício de Direitos, Liberdade e Garantias, etc...
Tudo isto num País que tinha e tem tudo para se tornar num dos mais prósperos do Mundo. Tudo menos respeito pela Liberdade Individual e confiança nos mecanismo do Mercado Livre. Só nos faltam senhas de racionamento, preços controlados e um Estado de emergência. O resto dos ingredientes da sopa já lá estão todos. E escaldados.
Fica o excerto do artigo de Maurício Rojas. Ler artigo completo aqui.
Parece que no paraíso do Peronistas, dos Galtieristas e, mais recentemente dos Kircheneristas - homem seguido de mulher na presidência, onde é que eu já vi isto?!? - de todos os que entendem ter sido tocados por Deus ou pela Providência para derramaram sobre os seus cidadãos a sua infinita e inapelável sabedoria; nem tudo vai bem ou, para ser preciso, tudo vai mal.
Sim, vamos nacionalizar as empresas que se desenvolveram com o aforro de uns quantos e cujo risco eles suportaram. Como a coisa correu bem, toca a apropriar-se dela. Sim, vamos ferrar o calote a quem nos emprestou dinheiro, dizendo alto, unilateralmente e a uma só voz: «Não pagaremos!» - qualquer coincidência com a famosa expressão da Passionara nos tempos da guerra civil na batalha é pura ficção! -. Sim, vamos dizer a todo o mundo que o paraíso socialista à maneira Argentina tem resultado numa taxa de inflação que ninguém sabe exactamente qual é porque o governo a esconde - esses atrevidos cidadãos pensarão mesmo que isso lhes diz respeito? que impertinência! -, numa taxa de desemprego que também, ao certo, ninguém sabe porque o governo não quer dizer - o cidadão deve ter mais com que se preocupar, com o pão por exemplo - e com níveis de corrupção que o governo também não divulga porque não lhe convirá. Assim, no eixo Buenos Aires, Caracas, Havana e La Paz/Sucre, essa verdadeira Confederação Bolivariana, tudo vai bem, menos a economia, as finanças, a qualidade de vida, a competitividade empresarial, o emprego, a inflação, o livre exercício de Direitos, Liberdade e Garantias, etc...
Tudo isto num País que tinha e tem tudo para se tornar num dos mais prósperos do Mundo. Tudo menos respeito pela Liberdade Individual e confiança nos mecanismo do Mercado Livre. Só nos faltam senhas de racionamento, preços controlados e um Estado de emergência. O resto dos ingredientes da sopa já lá estão todos. E escaldados.
Fica o excerto do artigo de Maurício Rojas. Ler artigo completo aqui.
Más que un país, Argentina es una paradoja o el enigma de una nación que parece tenerlo todo para ser infinitamente próspera pero que se empeña en no serlo. Las noticias que cotidianamente nos llegan desde allí ya no son tales, sino meras repeticiones, cada vez más rocambolescas, de los despropósitos de siempre: un vicepresidente enjuiciado por corrupción, un Gobierno que crea una Secretaría para la Coordinación Estratégica para el Pensamiento Nacional, un país en recesión y al borde del default, un clan gobernante que se enriquece a una velocidad "vertiginosa para cualquier bípedo común y corriente", para decirlo con las palabras de Mario Vargas Llosa. Nada de esto es nuevo y requiere por ello de una explicación que vaya más allá de lo circunstancial, es decir, de la contingencia y de los nombres de quienes hoy encarnan roles que son ya infaltables en el drama argentino.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Políticas Públicas e Vinho: o rótulo interessa, mas a substância é o que mais importa
A maioria de nós não duvida que a generalidade dos decisores públicos tenha a melhor das intenções quando propõe a adopção de um qualquer quadro legislativo, como terá poucas dúvidas que os mesmos terão a melhor das boas vontades no tocante à resolução do problema que a legislação a aprovar ou a decisão a tomar visa dar resposta. Ainda que alguns de nós tendam a pensar que o processo, aqui e ali, se verá inquinado por razões estranhas ao mérito das propostas e à própria virtude do entes que as propõem, ainda assim reitero a minha convicção que a generalidade das decisões políticas são, de facto, tomadas tentando acautelar o bem comum. Para os leitores que discordem desta posição, acto de resto perfeitamente legítimo, optemos então por convencionar, como frequentemente se faz nas ciências exactas para desfazer, ainda que artificialmente, um impasse; que de facto é assim, aceitemos como verdade que a regra radica na boa intenção do promotor legislativo e na sua vontade de prosseguir o interesse público.
Primeira pergunta: o que é o interesse público? Segunda questão: o que é o bem comum? Terceiro problema: que tipo de problemas resolve potencialmente a legislação? Quarta pergunta: quais as externalidades negativas que ela provavelmente provocará? Quinta indagação: qual o grau de preparação, de estudo, de conhecimento da matéria a legislar tinha o decisor? Sexta pergunta: seriam as premissas que estearam o processo dedutivo de tal forma válidas que permitam obter uma conclusão lógica também ela válida? Sétima dúvida: qual dos players no «jogo» tinha o maior estímulo para concorrer para a interpretação mais correcta da norma junto tribunais, o servidor público que foi mandado executar um postulado legal entretanto entrado em vigor ou um escritório de advogados disposto a pagar principescamente ao profissional liberal que conseguir sobrepor a sua interpretação à do primeiro? Oitava interrogação: não acreditando que as externalidades negativas se abatam sobre quem concebeu a lei em concreto, que tipo de estímulos teria ele para fazer um trabalho brilhante se no final do dia só ganharia uma dor de cabeça?
Todas estas questões, e muito mais exemplos poderiam ser aqui, e agora, aventados; são a prova que legislar pode muito bem partir de um processo abnegatório, de uma acção a todos os títulos meritória. Nem me atreverei a por isso em causa, porque sei ser essa a verdade na maioria dos casos. No entanto, o voluntarismo cego não interessa a ninguém, e interessa ainda menos quando os seus efeitos se destinam a ser por todos sentido. É pois verdade que, no final do dia, importarão muito menos as intenções que o aplicador da norma - o Estado, representado pelos que em seu nome agem - pretendia atingir e muito mais os efeitos produzidos por uma acção Estatal que, ao contrário daquelas levadas a cabo num local - o mercado - onde agentes livres e de forma não coerciva transaccionam bens e/ou serviços cujas consequências e/ou benefícios só a si implicam; é por todos sentida.
Milton Friedman sintetizou este insight, quando afirmou que não devemos julgar a garrafa pelo seu rótulo, mas sim pelo seu conteúdo (ver 05:25 m). De outro modo, relembro que já o Escolástico Espanhol Juan de Lugo se perguntava, 300 anos antes da grande obra de Max Weber «A ética protestante e o espírito do capitalismo» se alguma vez poderia haver em Economia processo algum que permitisse ao ser humano ter perfeita consciência de todas as variáveis envolvidas no mais pequeno processo decisório. Mais, Juan de Lugo afirma que a dificuldade em prever todas as consequências de qualquer intervenção no livre mercado são de tal maneira complexas, que apenas Deus poderia aspirar a conhecê-las. Assim, qualquer processo de tomada de decisões estará sempre votado a um possível fracasso, do que deduzo que quanto menos pessoas uma acção afectar, menos atacadas elas provavelmente serão e que essa propensão para o fiasco será tanto mais reduzida quanto maior o interesse dos agentes que nele tomem lugar. E sim, respondendo-vos, os escolásticos ibéricos católicos tardios forma capazes de formular as mais diversas teorias justificadoras do livre mercado e do espírito capitalista que hoje tendemos a atribuir aos protestantes do norte e centro da Europa. A este respeito ver o vídeo do Professor Huerta de Soto que resume sucintamente a natureza dos seus contributos e como ela, a Escola de Salamanca, antecipa «descobertas» atribuídas ao iluminismo escocês de Adam Smith. E não se esqueçam: o excesso de legislação afecta gravemente o equilíbrio que a mão invisível do mercado tão habilmente tem sabido trazer à humanidade, a que se deve juntar a imprecisão das variáveis insertas no modelo que viria a originar a peça legislativa entrada em vigor.
Primeira pergunta: o que é o interesse público? Segunda questão: o que é o bem comum? Terceiro problema: que tipo de problemas resolve potencialmente a legislação? Quarta pergunta: quais as externalidades negativas que ela provavelmente provocará? Quinta indagação: qual o grau de preparação, de estudo, de conhecimento da matéria a legislar tinha o decisor? Sexta pergunta: seriam as premissas que estearam o processo dedutivo de tal forma válidas que permitam obter uma conclusão lógica também ela válida? Sétima dúvida: qual dos players no «jogo» tinha o maior estímulo para concorrer para a interpretação mais correcta da norma junto tribunais, o servidor público que foi mandado executar um postulado legal entretanto entrado em vigor ou um escritório de advogados disposto a pagar principescamente ao profissional liberal que conseguir sobrepor a sua interpretação à do primeiro? Oitava interrogação: não acreditando que as externalidades negativas se abatam sobre quem concebeu a lei em concreto, que tipo de estímulos teria ele para fazer um trabalho brilhante se no final do dia só ganharia uma dor de cabeça?
Todas estas questões, e muito mais exemplos poderiam ser aqui, e agora, aventados; são a prova que legislar pode muito bem partir de um processo abnegatório, de uma acção a todos os títulos meritória. Nem me atreverei a por isso em causa, porque sei ser essa a verdade na maioria dos casos. No entanto, o voluntarismo cego não interessa a ninguém, e interessa ainda menos quando os seus efeitos se destinam a ser por todos sentido. É pois verdade que, no final do dia, importarão muito menos as intenções que o aplicador da norma - o Estado, representado pelos que em seu nome agem - pretendia atingir e muito mais os efeitos produzidos por uma acção Estatal que, ao contrário daquelas levadas a cabo num local - o mercado - onde agentes livres e de forma não coerciva transaccionam bens e/ou serviços cujas consequências e/ou benefícios só a si implicam; é por todos sentida.
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