Depois de alguma semanas de interregno, que procurarei não repetir, eis-me de volta, e logo com um tema quente: a natalidade.
Deixo-vos um excerto da Daniela Silva, do Insurgente, que importa ler e reflectir...
É provavelmente verdade que num futuro próximo onde as crianças continuem a ser um tesouro, o novo ouro equiparável ao velho do tempo Metalismo em importância e valor, a falta de recursos para o pagamento de pensões nem seja o principal problema...
Fica também o vídeo por ela postado.
O resto está aqui.
(...)
Nestes moldes que predominam na actualidade, torna-se muito complicado para algumas pessoas compreender a divisão de recursos, de tarefas e de responsabilidade que caracteriza a dinâmica familiar e reconhecer que certos custos vão sendo amenizados conforme o número de filhos vai aumentando. Não sou eu que digo; no longo e interessante artigo “Why having big families is good for you (and cheaper)”, podem ler o testemunho de um casal que teve seis filhos e que garante não se ter arrependendido. E uma família, para além das virtudes orgânicas internas, não é uma ilha pois todos ganham com esta estabilidade, segurança, solidez da responsabilidade paternal de longo prazo, propensão maior para a poupança, etc. E para os ambientalistas ferrenhos fica o recado: até o planeta agradece! Já imaginaram os custos do vosso nível de vida se os elementos da vossa família vivessem em casas separadas? Se continuar a persistir uma cultura de desresponsabilização pessoal perante as tendências demográficas que têm avançado no terreno, no nosso futuro vão predominar as aglomerações urbanas habitadas por uma população idosa envolta do seu aquecimento central – comprado ainda no tempo em que ser uma família unipessoal era um orgulho – solitários, sem pensão, sem poupanças, a merecer tão pouca solidariedade dos filhos como a que lhes concederam na infância, e a gozar de uma longevidade alargada diante de uma programação variada que vai ambientar tantas mortes anónimas no silêncio dos apartamentos. Estou a pintar o quadro com um tom demasiado negro? Se não existir uma mudança de atitude, duvido que o meu tom seja exagerado. Naturalmente, os problemas demográficos não se resolvem por decreto. A própria sociedade será forçada a bater na parede e a repensar os esquemas em que resolve os problemas mais elementares da sua vida.
(...)
Reflexões críticas sobre a actualidade à luz dos postulados liberais clássicos e libertários
amagi
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quarta-feira, 22 de outubro de 2014
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
Tribunal Constitucional e sustentabilidade do sistema
Transcrevo em baixo um post de Vital Moreira no seu blog a propósito da de decisão do TC em chumbar a contribuição de sustentabilidade. Podia ter sido eu a escrever aquelas palavras, que obviamente subscrevo. Acrescentava, em todo o caso, um ponto: o que fazer ao principio da confiança face àqueles que são jovens e descontam hoje muito mais para a SS do aqueles que recebem pensões descontaram no seu tempo e que, pelo andar da carruagem, pouco vão receber? Onde está aí o idolatrável principio da protecção da confiança?
Como dizia alguém, Vale a pena pensar nisto.
Sustentabilidade
Publicado por Vital Moreira, visto aqui
Mais uma vez com base numa leitura fundamentalista e imoderada do princípio da proteção da confiança, o Tribunal Constitucional resolveu "chumbar" a "contribuição de sustentabilidade" dos pensionistas para o sistema de pensões.
Resta saber como se assegura a sustentabilidade financeira do País e do próprio sistema de pensões quando o Estado não pode aplicar uma contrituição aos titulares de pensões mais elevadas para o sistema de pensões.
Aditamento
Obviamente, quando a despesa não pode ser comprimida só resta aumentar os impostos. O que há de iníquo nisto é que pensões de valor elevado, especialmente no setor público, muito acima do que justificariam as contribuições feitas pelos seus beneficiários, vão ser mantidas intocadas à custa dos contribuintes em geral, os quais aliás já não beneficiarão de pensões iguais quando chegar a sua vez. Alguns têm o cinismo de chamar a isto "solidariedade inter-geracional"!...
Resta saber como se assegura a sustentabilidade financeira do País e do próprio sistema de pensões quando o Estado não pode aplicar uma contrituição aos titulares de pensões mais elevadas para o sistema de pensões.
Aditamento
Obviamente, quando a despesa não pode ser comprimida só resta aumentar os impostos. O que há de iníquo nisto é que pensões de valor elevado, especialmente no setor público, muito acima do que justificariam as contribuições feitas pelos seus beneficiários, vão ser mantidas intocadas à custa dos contribuintes em geral, os quais aliás já não beneficiarão de pensões iguais quando chegar a sua vez. Alguns têm o cinismo de chamar a isto "solidariedade inter-geracional"!...
terça-feira, 19 de agosto de 2014
Os negociadores do Estado e a Regulação do Banco de Portugal
O recente caso da mais que provável falta de rigor na regulação e supervisão do sistema bancário Português por parte do BdP vem, uma vez mais, demonstrar aquilo que os liberais sabem há muito: a história do intervencionismo tem sido mais frequentemente uma história de fracasso do que de sucesso.
Vejamos as coisas como elas tendem a ser. Ao que parece, estão a ser contratados físicos nucleares, matemáticos renomados e cientistas computacionais pelos principais distritos financeiros do globo para, fora daquilo que seria o seu habitat natural, desenharem um conjunto de ferramentas que permitam maximizar a rentabilidade da carteira de produtos financeiros das grandes empresas financeiras da city, de la defense, de Wall Street ou de Tóquio, tornando-os de tal modo complexos que só eles e quem os contrata os percebem. O que acontece de seguida nós sabemos: vendem-nos a governos em que os negociadores governamentais têm muito poucos incentivos para os desmontarem e perceberem o seu verdadeiro alcance. Afinal, como pode um quadro intermédio do Estado jogar de igual com igual com profissionais deste calibre, totalmente dedicados à causa e pagos principescamente pelo seu serviço?
A seguir também temos uma ideia do que se segue. Acusam quem lhes vendeu um produto complexo cuja análise e estudo não foi feita por diversas razões - incapacidade técnica, impreparação e inexperiência polulam seguramente entre as demais, porventura bem menos lisonjeiras para os negociadores nacionais - de lhes terem oferecido um derivado financeiro cujas variáveis analíticas eles jamais poderiam esperar que produzissem os efeitos depois verificados. Se tivessem lido os contratos talvez tivessem entendido que se não dominavam a ferramenta, o mais avisado seria não a subscrever. O que terão pensado então? «Não, eles seriam incapazes de nos enganarem desta forma. Afinal, somos representantes de um Estado». Reconhecem o paralelismo com a traição que o Governador do BdP diz ter sofrido? Talvez eles também tenham pensado outra coisa. Talvez tenham pensado o seguinte: «Também não vale a pena pensar muito nisso. O que interessa agora é maquilhar as contas, desorçamentar a coisa, fazer de conta que não existe aqui nenhum problema. Quem vier a seguir que feche a porta». Ou, dito de outra maneira, «os contribuintes que paguem. Já é tempo de se irem habituando».
O risco de monopolizar numa só entidade esta função que, por mais que se declare independente, é, na realidade, ou apêndice estatal; é que se a coisa não corre bem, como frequentemente não corre, as consequências podem ser desastrosas. Ao concentrar tanto poder em homens e mulheres que não têm as mesmas ferramentas que possuem aqueles com quem negoceiam, que não têm os mesmos incentivos, que não conseguem contratar a melhor e mais influente sociedade de advogados do País a quem prometem «prémios de jogo», leva-nos a concluir que o resultado final não podia ser diferente.
Tudo isto é já suficientemente mau para ser verdade.
Mas atenção: tudo isto, num futuro mais ou menos longínquo, vai repetir-se. Enquanto se focarem na enunciação das consequências e não na enumeração e ulterior ataques ás causas, isto vai repetir-se. Além disso, quem foge está sempre em vantagem, porque ocupa 24 horas do seu tempo a planear a dissimulação e a semear o equívoco no regulador. O regulador, esse, é mais provável que esteja preocupado com o desconto de IRS no recibo de vencimento desse mês ou na reforma que auferirá volvidos três anos. Numa luta tão desigual, só por milagre as coisas poderiam ser diferentes.
Leitura complementar: artigo do Prof. André Azevedo Alves no Observador. Ver aqui.
Vejamos as coisas como elas tendem a ser. Ao que parece, estão a ser contratados físicos nucleares, matemáticos renomados e cientistas computacionais pelos principais distritos financeiros do globo para, fora daquilo que seria o seu habitat natural, desenharem um conjunto de ferramentas que permitam maximizar a rentabilidade da carteira de produtos financeiros das grandes empresas financeiras da city, de la defense, de Wall Street ou de Tóquio, tornando-os de tal modo complexos que só eles e quem os contrata os percebem. O que acontece de seguida nós sabemos: vendem-nos a governos em que os negociadores governamentais têm muito poucos incentivos para os desmontarem e perceberem o seu verdadeiro alcance. Afinal, como pode um quadro intermédio do Estado jogar de igual com igual com profissionais deste calibre, totalmente dedicados à causa e pagos principescamente pelo seu serviço?
A seguir também temos uma ideia do que se segue. Acusam quem lhes vendeu um produto complexo cuja análise e estudo não foi feita por diversas razões - incapacidade técnica, impreparação e inexperiência polulam seguramente entre as demais, porventura bem menos lisonjeiras para os negociadores nacionais - de lhes terem oferecido um derivado financeiro cujas variáveis analíticas eles jamais poderiam esperar que produzissem os efeitos depois verificados. Se tivessem lido os contratos talvez tivessem entendido que se não dominavam a ferramenta, o mais avisado seria não a subscrever. O que terão pensado então? «Não, eles seriam incapazes de nos enganarem desta forma. Afinal, somos representantes de um Estado». Reconhecem o paralelismo com a traição que o Governador do BdP diz ter sofrido? Talvez eles também tenham pensado outra coisa. Talvez tenham pensado o seguinte: «Também não vale a pena pensar muito nisso. O que interessa agora é maquilhar as contas, desorçamentar a coisa, fazer de conta que não existe aqui nenhum problema. Quem vier a seguir que feche a porta». Ou, dito de outra maneira, «os contribuintes que paguem. Já é tempo de se irem habituando».
O risco de monopolizar numa só entidade esta função que, por mais que se declare independente, é, na realidade, ou apêndice estatal; é que se a coisa não corre bem, como frequentemente não corre, as consequências podem ser desastrosas. Ao concentrar tanto poder em homens e mulheres que não têm as mesmas ferramentas que possuem aqueles com quem negoceiam, que não têm os mesmos incentivos, que não conseguem contratar a melhor e mais influente sociedade de advogados do País a quem prometem «prémios de jogo», leva-nos a concluir que o resultado final não podia ser diferente.
Tudo isto é já suficientemente mau para ser verdade.
Mas atenção: tudo isto, num futuro mais ou menos longínquo, vai repetir-se. Enquanto se focarem na enunciação das consequências e não na enumeração e ulterior ataques ás causas, isto vai repetir-se. Além disso, quem foge está sempre em vantagem, porque ocupa 24 horas do seu tempo a planear a dissimulação e a semear o equívoco no regulador. O regulador, esse, é mais provável que esteja preocupado com o desconto de IRS no recibo de vencimento desse mês ou na reforma que auferirá volvidos três anos. Numa luta tão desigual, só por milagre as coisas poderiam ser diferentes.
Leitura complementar: artigo do Prof. André Azevedo Alves no Observador. Ver aqui.
quarta-feira, 30 de julho de 2014
A escola pública, os alunos e o futuro de Portugal
A
discussão em torno da educação em Portugal é simultaneamente tanto um
imperativo imposto pela necessidade quanto parece ser uma impossibilidade
teórica, imposta pela análise prática quando considerado o caótico processo de
discussão educacional que teve lugar nos últimos anos. Com efeito, o que se
conclui - para além de que quando se fala desta temática, nada se consegue
concluir - é que se discute cá fora o que deveria ser discutido internamente
duvidando-se, e com fortes razões para isso, se a discussão que deveria ser
feita cá fora, é ou não levada a cabo lá dentro. A primeira diz respeito ás carreiras
e ao processo avaliativo, o segundo aos currículos, ao cheque-ensino -
concorrência - e à disciplina na escola, entre outros.
Vamos
por partes. O mundo mudou e, como de costume, sectores consideráveis da
população Portuguesa, nomeadamente as corporações mais bem instaladas e que
mais têm a perder com este processo globalizador, continuam, hoje e sempre,
irredutíveis à mudança e ao invasor ideário neo-liberal e ao regime
capitalista-exploralista que o serve. Com efeito, é exactamente isso que se
passa. Não precisamos de mudar nada no nosso sistema, porque tudo vai bem. O
oriente não se industrializou e não se tornou o centro produtor do mundo - em
bens e serviços -, o leste europeu, mais alfabetizado e instruído e com custos
unitários do factor trabalho mais baixos que o nosso, não se liberalizou, a
China e a Índia não aderiram à OMC, os tigres asiáticos são uma lenda polulante
que graça lá para os lados do sol nascente à qual não devemos ligar, a América
do Sul não tem hoje uma voz activa no mundo, a África não procura, ainda que
lentamente, o seu lugar ao sol no concerto das nações e o conjunto das
economias emergentes não dilaceraram a estrutura produtiva que existia no País,
num mundo com cada vez menos barreiras proteccionistas e no qual a competição
sectorial é mais intensa que alguma vez foi.
Como
dificilmente podemos concorrer em mercado aberto com estes players em produtos de
baixo valor acrescentado, tê-lo-êmos de fazer em nichos de mercado em que
sejamos comparativamente melhores. A melhor forma de o podermos fazer reside na
melhor combinação que consigamos encontrar entre as duas variáveis fundamentais
da produção que nos interessam aqui discutir: o capital e o trabalho. No que
diz respeito ao primeiro factor, os dados não são encorajadores. A formação
bruta deste tipo de factor de produção está muito longe de ser o esperado, e é
um dos calcanhares de aquiles da nossa economia. Quando se fala que a economia
lusa está fortemente descapitalizada, não se fala tanto na falta de capital
circulante: é do capital fixo que estamos verdadeiramente necessitados. Como
durante o boom do crédito barato nos mercados internacionais nos fomos
divertindo a gastá-lo - gastá-lo é diferente de aplicá-lo ou investi-lo, pois
este últimos pressupõem reprodutividade - em autoestradas onde ninguém anda, em
reestruturações de linhas de caminho-de-ferro que poupam minutos a custo de
centenas de milhões de euros, em processos de formação profissional cuja
avaliação nunca foi feita - talvez porque o resultado fosse aquele que, empiricamente,
todos prevemos que seja: MEDÍOCRE - ou em fantásticos planos corporizados por
uma nouvelle instruction chamada «Novas Oportunidades», essa
fantástica obra que pretendia eliminar por decreto uma atraso formacional que
tinha mais a ver com a Escola Pública da ditadura e da Democracia da III
República do que com qualquer outra questão; nunca fizemos o investimento que
devíamos ter feito na modernização da nossa estrutura produtiva no que às
instalações e equipamento/maquinaria diz, pois os empresários, quase que
obrigados pelas circunstâncias criadas pelo poder político e pela legislação
por ele aplicada na forma de isenções, estímulos, benefícios fiscais, etc,
preferiram aplicar esse dinheiro no imobiliário e em bens e serviços para
alimentar o mercado interno em vez de fazer aquilo que um País da nossa
dimensão deve fazer agora e sempre, que é exportar. E isto só aconteceu com o
dinheiro dessa oferta brutal de crédito que teve lugar no início da década que
o Estado não decidiu esbanjar em obras públicas, e aumentos de despesa com a
saúde, educação e prestações sociais que, há muito, já não se pagavam com as
receitas obtidas a através de contribuições e impostos - gosto da palavra
contribuições, diga-se -. Foi aí que começamos a perder o comboio desta última
globalização. É por isso que acho curioso esse auto-elogio que alguns fazem
agora a propósito desta capacidade que os empresários emprestaram à nossa
economia ao deslocarem a produção do mercado interno para o exterior. É tudo
uma questão de estímulos. Se ao menos o Estado tivesse percebido o que a
Alemanha já percebeu desde a sua unificação em 1870, a China desde 1979 com
Deng Xiaoping e os Estados Unidos não tardarão a perceber, por maior que seja o
mercado interno, o equilíbrio da balança comercial é fundamental num mundo
liberalizado e desprovido de barreiras alfândegárias. E o nosso mercado interno
não tem comparação com aqueles que acabo de referir, o que só piora o problema.
Ora se não temos possibilidade de solicitar somas avultadas de dinheiro na
forma de empréstimos porque ninguém nos empresta, como é quase impossível
aumentar a carga fiscal porque a mesma atingiu já números exorbitantes, e como
não geramos poupanças que nos permitam usá-las para, agora sim, as aplicar-mos
em bens e serviços transacionáveis capazes de ombrearem com o melhor que no
mundo se produza –ao invés do que se faz no passado recente -, resta-nos apenas
a moleta do investimento externo para podermos fazer a revolução tecnológica
que urgentemente necessitamos. Como a nossa estabilidade governativa, a nossa
política fiscal, a nossa burocracia e o nosso quadro legislativo são tudo menos
estáveis e previsíveis; não se augura grande futuro a este País se um grande consenso
político e social não se vir entretanto gerado.
Mas
onde perdemos definitivamente o comboio foi quando não percebemos o que fazer
com a educação desse bem cada vez mais escasso e precioso que são os nosso
jovens, onde me incluo, eles que representam a mão-de-obra, o factor trabalho,
o capital humano de amanhã, que vai competir com os jovens da Coreia do Sul, do
Japão, de Singapura, da Indonésia, do Brasil, da Colômbia, da Alemanha, da
Polónia e do Canadá. É essa a diferença entre a geração que hoje tem trinta ou
quarenta anos, e aquelas que aí vêm, com a dos seus pais ou avós: já não vais
haver espaço para equívocos, para disparates como a protecção legal dada aos
fósforos como forma de proteger essa indústria descapitalizada e ineficiente
contra a modernidade representada pelos isqueiros. Não é esquecendo a ameaça,
ou utilizando expedientes dilatórios para a rechaçar, apresentada pela
concorrência num mundo globalizado que resolvemos os nossos problemas: é enfrentando-os
em campo aberto. Naturalmente não em tudo, mas sim naquilo que podemos e
realmente somos melhores a fazer. A indústria do calçado, depois de ter passado
por momentos difíceis, não se salvou por decreto governamental ou por uma lei
da Assembleia da República: prosperou por que se reinventou, porque percebeu o
problema que residia nas consequências entretanto analisadas e porque lhe
atacou as causas. Esta indústria entreluziu rapidamente que nos produtos de
baixo valor acrescentado dificilmente seria competitiva: os concorrentes
asiáticos haveriam sempre de produzir o mesmo, e mais barato. Havia de utilizar
o know-how de décadas para produzir esses bens com maior valor acrescentado, e
ousou-se, com sucesso, jogar na mesma liga da Itália. Fascinante!. Com um
Markting agressivo e com novos modelos de gestão, o novo produto era muito mais
apetecível. E mais caro. Cada hora de trabalho gerava um valor muito superior
ao gerado no pretérito. Oxalá o seu exemplo faça escola.
E
a nossa Escola, essa formadora de capital humano que, antes de mais, forma
pessoas, forma cidadãos? Quem julga que ouvirá neste blog críticas pessoas a
políticos e/ou a movimentos associativos ou sindicalistas, perde o seu tempo.
Neste blog discutem-se ideias, não pessoas. Nessa linha, não quero nem vou
referir-me ao conflito entretanto reaberto pela enésima vez entre sindicatos e
a tutela, a propósito da prova de aptidões e competências que, apesar de tudo,
serviu de mote para esta reflexão. Não tenho capacidade, e em bom rigor também
me falta a vontade, de discutir se a prova deve ou não ser feita, nos moldes,
com o teor e nas circunstâncias em que esta foi feita, embora me pareça
evidente que a entidade patronal, quando antevê que vá ter um grande número de
candidatos para um número reduzido de vagas, deva ter o direito de impor previa
e publicamente as condições em que essa escolha vá ter lugar. E não me parece
que a tentativa de alguns colegas boicotarem a prova e limitarem a
possibilidade de, em liberdade, colegas seus poderem escolher fazê-la ou não,
contribua para uma imagem que deveria ser de rigor e de disciplina, para dar o
exemplo, e não de amotinação e desobediência. É certo que foi um ínfima parte
da classe, e esse aspecto tem de ser aqui reforçado, mas uma classe
determinante para o futuro do País que se quer ver respeitada e estimada pela
comunidade e pelos alunos, não se pode expor desta maneira sem esperar ser
atingida pelos estilhaços da deflagração, da detonação que esses actos provicam.
O Ministério não sai ileso de críticas neste processo, mas a história não foi
diferente com os últimos Ministros ou com os últimos governos apoiados por
maiorias parlamentares diferentes da actual, o que se levanta a interrogação
seguinte: serão as diferentes tutelas, portadoras elas mesmas de diferentes
sensibilidades e advindas de diferentes sectores da sociedade, as únicas
culpadas dos processos contenciosos frequentemente abertos e reabertos no
passado próximo? Fica a questão.
Sejamos
francos. Contra uma explosão no número de formados no ensino superior para
ingressarem no ensino, opõe-se uma diminuição brutal do número de alunos,
tendência que vem já do final da década de 70 e que se tem vindo a agravar nos
últimos anos. A fórmula composta pelas variáveis «mais professores» e «menos
alunos» parece indicar-nos o óbvio: há cada vez menos trabalho para um número
crescente de professores, e este é um facto indesmentível, porque factual.
Deixando
de lado a questões corporativas e focando o objecto deste artigo, o principal
problema reside, quanto a mim, na necessidade imperiosa de mudar o paradigma em
que operamos para nos tornarmos mais competitivos. Se não o fizermos a bem,
agora, vamos ser provavelmente forçados a fazê-lo à pressa e à bruta, sem
possibilidade de planear e de gerir eficientemente essa transição. As condições
que fomos forçados a aceitar pela Troika em 2011 poderiam ter sido suavizadas
se não nos tivéssemos apresentado às instâncias internacionais praticamente
falidos, e um falido não negoceia, não impões condições, como impôs a Irlanda
na manutenção do IRC. Enquanto andamos a discutir se os nossos filhos devem ou
não trazer trabalhos para casa - coitados! -, outros discutem qual o número de
horas que os jovens devem dedicar à escola em casa, de forma a prepará-los para
um futuro ultra competitivo. Enquanto entre nós se continua a aceitar quatro
meses de férias para a quase totalidade dos estudantes - um calendário
essencialmente agrícola completamente ultrapassado -, outros discutem já sua
diminuição de forma rápida. Enquanto entre nós o universitário com mais
matrículas é visto como um exemplo e admirado pela comunidade estudantil,
noutra parte do mundo ele é ostracizado por brincar com o dinheiro dos
contribuintes e por tirar uma vaga a alguém que a soubesse apresentar. Enquanto
que noutros pontos do globo o ensino permite, e admite, que estudantes
diferentes progridam a velocidades diferentes, entre nós esse conceito sofista
tão caro à tradição moral republicana que é a Igualdade, obriga todos os
estudantes a andarem à velocidade do mais lento. Enquanto que outros países
perceberam já que é introduzindo concorrência no sistema - concorrência entre
público e privado e entre escolas do próprio sector público -, no nosso canto à
beira-mar plantado insiste-se na manutenção de uma estrutura monolítica que
está a roubar, sem que ninguém se aperceba, o futuro do País. Enquanto que
noutras paragens se não confunde direito ao ensino com ensino fornecido pelo
próprio Estado através de escolas Estatais, entre nós continua-se a chamar
todos os nomes e mais alguns àqueles que só querem colocar os filhos na escola
que mais garantias lhe dê, sem pagar mais do que já paga para o sistema público
que financia com os seus impostos: seria o cheque-ensino. Tudo isto tarda em
ser discutido com rigor, com verdade, com lealdade. Tudo isto tarda em ser
aplicado, não porque não se saiba que iria melhorar o ensino, mas porque se
acha que iria ser difícil consegui-lo.
Mais:
alguém percebe como pode um professor com 30 anos de serviço, um docente cuja
experiência o torna um activo valiosíssimo para a escola e para a sociedade,
ter um horário zero e, ao seu lado, tem um professor contratado? Alguém percebe
o caótico e anárquico regime de colocação de professores, que frequentemente
opõe professores do quadro a contratados e que causa níveis de fricção e
desgaste na classe docente provavelmente evitáveis? Consegue alguém entender
porque é que os próprios alunos do secundário, ao perceberem a extrema
dificuldade que representa exercer a profissão de professor, se continuam a
inscrever em massa nos cursos superiores habilitantes? Pode alguém perceber
porque é que, havendo professores com horário zero ou parcial, não é criada uma
bolsa de explicadores que evitasse que os alunos que têm menos recursos, bem
como os demais, pudessem ter explicações na própria escola? Creio que todos
sabemos a resposta, e importa que percebamos de uma vez por todas que urge agir
ao invés de desviar o olhar.
Temos,
portanto, dois caminhos à nossa frente: ou mantemos tudo como está e arriscamo-nos
e ser varridos do mapa por quem seja mais instruído e competitivo que nós e,
mais grave, insultados legitimamente pelos que hoje não estamos a preparar e a
disciplinar convenientemente, os nossos filhos; ou então fazemos o que importa
fazer, doa a quem doer e custe o que custar, sem calculismo e sem calendários
eleitorais a toldar-nos o raciocínio.
É
simples, tudo o que tem de se fazer é decidir. E arcar com as consequências.
terça-feira, 8 de julho de 2014
«Nós na ONU»: Artur Baptista da Silva e o nosso destino colectivo
A propósito de mais um post no Insurgente, desta feita assinado por Miguel Noronha, lembrando a figura de Artur Baptista da Silva, pergunto-me o que é preciso para se ser levado a sério.
Para que nos ouçam é necessário ter cabelos brancos, se não muitos pelo menos uns quantos, preferencialmente uns óculos com pouca massa, embora agira já se vá usando - uma armação fina continua ainda a dar um ar mais intelectual ao seu portador -, o cabelo, pouco, puxado para trás e envergar umas calças vincadas, uma camisa com botões de punho - sem eles não se é a mesma coisa - uma gravata e um blazer. Se a tudo isto juntarmos uma dicção agradável, um vocabulário requintado quanto baste, que o povo não gosta espertalhões, uma convicção aparente e uns quantos clichés da moda repetidos com um abanar de cabeça que faz os outros pensar que se não acompanham o seu raciocínio então não percebem nada do assunto, então temos homem.
Este caso não é singular por ser raro, nestes moldes exactamente talvez até o seja, mas burlões temo-los em toda a parte. Este apenas teve mais notoriedade porque o autor do acto deambulou descomprometidamente pela Universidade de Verão de um Partido Político e por um programa de televisão, o expresso da meia noite, que se tinha - e tem - como credível e sério.
Este caso faz-nos ir mais longe no raciocínio. Para chegar a algum lado, e o poder é sempre um bom e clássico exemplo disso mesmo, é necessário apenas falar bem, decorar meia dúzia de números - errados ou certos, a maioria não os sabe e os que os sabem, ficando na dúvida, também não corrigem - acreditar na sua própria capacidade para ludibriar e criar uma constelação de correlegionários que o suportem e a quem se pagará quando ao pote se chegar.
Se este caso não servir para mais nada, ao menos que sirva para abrirmos os olhos e confirmarmos o que outros, com responsabilidade de influenciar o nosso futuro, vão dizendo, tentando assim perceber se a lógica ou a racionalidade moram nas suas mensagens. Não basta dizer que temos de baixar o desemprego: há que explicar como. Não chega afirmar que temos de deixar o Euro: é preciso clarificar o que aconteceria à nossas poupanças. Não é suficiente propalar-se aos sete ventos que a economia tem de crescer: há que explicar qual a estratégia para o conseguir e qual o modelo de crescimento que se vai adoptar. Não é justo não dizer que não temos economia para pagar este Estado Social, pois a receita continua estrutural - e não só conjunturalmente - longe de alcançar a despesa -só para que se saiba, nunca na III Républica tivemos superavit nas nossas contas públicas, o que é capaz de explicar muitas coisas -. Não é licito enganar as pessoas fazendo-as crer que com a reestruturação da dívida, ainda por cima unilateral, os salários e as pensões serão repostos e tudo continuará como dantes, porque isso não é verdade. E não vai acontecer. Não é admissível que não se explique às pessoas que descontam para um sistema providencial de tipo Pay as we go e não de capitalização individual, o que na prática quer dizer que os que estão no activo descontam para os que estão neste momento aposentados na esperança, repito, na esperança, que os que lhe sucedem façam o mesmo. Os números é que são o problema. Problema ao qual ninguém liga.
Quem tiver uma calculadora, correcção, um lápis e uma folha de papel e olhos na cara rapidamente vai perceber o embuste para o qual foi trazido.
Olhem a demografia. (1975 - 2.75 filhos por mulher/ 2014 - 1.21 filhos por mulher)
Olhem a esperança média de vida á nascença.(1975 - 68,4 anos/ 2012 - 80 anos)
Olhem o peso do Ministério da Saúde em % do PIB. (1975 - 0,4 %/ 2012 - 6,2 %).
Olhem a duração média das pensões da CGA. ( 1992 - 12.2 anos/ 2013 -18.1 %).
Olhem o número de beneficiário no activo por pensão da SS. (1975 - 3.8/ 2012 - 1,4%)
Olhem as despesas com pensões da Segurança Social em % do PIB. (1975 - 6,7 % / 2012 - 22%)
Olhem as despesas com pensões da CGA em % do PIB. (1975 - 0,4 % / 2013 - 5,1%)
Do the math.
(...)
FONTE- PORDATA
Acima de tudo, precisamos de alguém que fale verdade. Pode doer, mas já nos vai chegando de analgésicos. E, no caso de Artur Baptista da Silva, de placebos.
Para que nos ouçam é necessário ter cabelos brancos, se não muitos pelo menos uns quantos, preferencialmente uns óculos com pouca massa, embora agira já se vá usando - uma armação fina continua ainda a dar um ar mais intelectual ao seu portador -, o cabelo, pouco, puxado para trás e envergar umas calças vincadas, uma camisa com botões de punho - sem eles não se é a mesma coisa - uma gravata e um blazer. Se a tudo isto juntarmos uma dicção agradável, um vocabulário requintado quanto baste, que o povo não gosta espertalhões, uma convicção aparente e uns quantos clichés da moda repetidos com um abanar de cabeça que faz os outros pensar que se não acompanham o seu raciocínio então não percebem nada do assunto, então temos homem.
Este caso não é singular por ser raro, nestes moldes exactamente talvez até o seja, mas burlões temo-los em toda a parte. Este apenas teve mais notoriedade porque o autor do acto deambulou descomprometidamente pela Universidade de Verão de um Partido Político e por um programa de televisão, o expresso da meia noite, que se tinha - e tem - como credível e sério.
Este caso faz-nos ir mais longe no raciocínio. Para chegar a algum lado, e o poder é sempre um bom e clássico exemplo disso mesmo, é necessário apenas falar bem, decorar meia dúzia de números - errados ou certos, a maioria não os sabe e os que os sabem, ficando na dúvida, também não corrigem - acreditar na sua própria capacidade para ludibriar e criar uma constelação de correlegionários que o suportem e a quem se pagará quando ao pote se chegar.
Se este caso não servir para mais nada, ao menos que sirva para abrirmos os olhos e confirmarmos o que outros, com responsabilidade de influenciar o nosso futuro, vão dizendo, tentando assim perceber se a lógica ou a racionalidade moram nas suas mensagens. Não basta dizer que temos de baixar o desemprego: há que explicar como. Não chega afirmar que temos de deixar o Euro: é preciso clarificar o que aconteceria à nossas poupanças. Não é suficiente propalar-se aos sete ventos que a economia tem de crescer: há que explicar qual a estratégia para o conseguir e qual o modelo de crescimento que se vai adoptar. Não é justo não dizer que não temos economia para pagar este Estado Social, pois a receita continua estrutural - e não só conjunturalmente - longe de alcançar a despesa -só para que se saiba, nunca na III Républica tivemos superavit nas nossas contas públicas, o que é capaz de explicar muitas coisas -. Não é licito enganar as pessoas fazendo-as crer que com a reestruturação da dívida, ainda por cima unilateral, os salários e as pensões serão repostos e tudo continuará como dantes, porque isso não é verdade. E não vai acontecer. Não é admissível que não se explique às pessoas que descontam para um sistema providencial de tipo Pay as we go e não de capitalização individual, o que na prática quer dizer que os que estão no activo descontam para os que estão neste momento aposentados na esperança, repito, na esperança, que os que lhe sucedem façam o mesmo. Os números é que são o problema. Problema ao qual ninguém liga.
Quem tiver uma calculadora, correcção, um lápis e uma folha de papel e olhos na cara rapidamente vai perceber o embuste para o qual foi trazido.
Olhem a demografia. (1975 - 2.75 filhos por mulher/ 2014 - 1.21 filhos por mulher)
Olhem a esperança média de vida á nascença.(1975 - 68,4 anos/ 2012 - 80 anos)
Olhem o peso do Ministério da Saúde em % do PIB. (1975 - 0,4 %/ 2012 - 6,2 %).
Olhem a duração média das pensões da CGA. ( 1992 - 12.2 anos/ 2013 -18.1 %).
Olhem o número de beneficiário no activo por pensão da SS. (1975 - 3.8/ 2012 - 1,4%)
Olhem as despesas com pensões da Segurança Social em % do PIB. (1975 - 6,7 % / 2012 - 22%)
Olhem as despesas com pensões da CGA em % do PIB. (1975 - 0,4 % / 2013 - 5,1%)
Do the math.
(...)
FONTE- PORDATA
Acima de tudo, precisamos de alguém que fale verdade. Pode doer, mas já nos vai chegando de analgésicos. E, no caso de Artur Baptista da Silva, de placebos.
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